Você sabe descrever a cultura da empresa onde trabalha?
Não estou falando do que está escrito nas paredes, mas dos comportamentos demonstrados pelas lideranças, do que é reconhecido e recompensado e, principalmente, do que é tolerado.
Cultura é isso: a forma como decisões tomadas todos os dias moldam o comportamento da organização.
Tenho certeza de que você consegue imaginar a cultura de empresas como Bradesco, XP, Magalu, Mercado Livre ou iFood, mesmo sem nunca ter trabalhado nelas. Isso acontece porque existe coerência entre estratégia, modelo de negócios, perfil dos clientes e a forma como as pessoas trabalham.
A cultura dá direção, acelera decisões, alinha esforços e constrói empresas vencedoras.
A oportunidade perdida
O estudo da Santo Caos confirmou minha percepção de que declarações de Missão, Visão e Valores vêm perdendo relevância como ferramenta de gestão.
Não dou muita atenção ao que leio nas paredes porque são declarações genéricas. São frases longas, enfadonhas que procuram abraçar o mundo com intenções abrangentes demais.
“Será que lá dentro é assim mesmo?”, me pergunto.
Quando 64% das organizações compartilham o mesmo conjunto de valores com outra empresa e o trio Ética, Pessoas e Inovação aparece em quase todas elas, surge uma pergunta inevitável:
Se todos dizem a mesma coisa, onde está a diferenciação?
Da mesma forma que nenhuma empresa se orgulha publicamente de cumprir a legislação trabalhista ou pagar impostos, também não se espera que uma organização moderna declare que não valoriza pessoas ou que considera a ética opcional.
Esses temas deixaram de ser diferenciais. São apenas a licença para operar.
O problema é que muitas empresas parecem investir mais energia na definição dos valores do que na construção dos mecanismos que os tornam reais.
Teremos transformado uma ferramenta de gestão poderosa em exercício de “corta e cola”?
Parte do mundo corporativo brasileiro parece ser adepta do “deixa a vida me levar”.
Vejamos:
- entre 1996 e 2026, o país cresceu apenas 0,59% ao ano.
- fomos a 6ª economia do mundo, hoje somos a 12ª.
- um trabalhador americano vale por cinco brasileiros; um alemão equivale a seis.
A oportunidade
O estudo mostra que empresas que possuem um conjunto original de valores atingem resultados significativamente superiores àquelas que têm “irmãs gêmeas”.
Tem dinheiro sobre a mesa!
Isso significa trabalhar a cultura.
Mas isso dá trabalho. Exige que se olhe no espelho. Demanda abertura para feedback, desafios e questionamentos. Dá lugar à reflexão antes da tomada de decisões relevantes.
Também gera desconforto quando estimula o confronto produtivo.
Comando e controle é mais fácil. O risco é não chegar ao destino desejado.
A cultura que importa
A cultura funciona como o vento para um veleiro. Quando sopra na direção certa, acelera a jornada. Quando sopra contra, exige mais energia, mais recursos e mais tempo para chegar ao destino. O problema é que, quando falamos de cultura, a calmaria também age contra.
Toda organização possui uma cultura, gerida ou não.
A diferença é que algumas a tratam como um ativo estratégico, enquanto outras a deixam surgir por acaso.
Por isso, a principal revelação deste estudo é a constatação de que a maioria das empresas confunde gestão da cultura com declaração de valores.
Sistemas criam cultura.
Duas empresas podem declarar exatamente os mesmos valores e operar de maneiras radicalmente distintas.
Se ambas afirmam valorizar pessoas, a diferença estará nos critérios de promoção, na qualidade da liderança e na forma como lidam com profissionais de alta performance que produzem resultados às custas do ambiente da equipe.
Se ambas afirmam valorizar inovação, a diferença estará na tolerância ao erro, na velocidade das decisões e na disposição de financiar experimentação.
Se ambas afirmam valorizar ética, a diferença aparecerá quando surgir uma oportunidade de negócio lucrativa que desafie os princípios declarados.
A cultura real de uma organização é revelada nas decisões difíceis.
Por isso, a pergunta mais importante para CEOs e líderes de RH é:
"Quais mecanismos garantem que nossos valores sejam praticados diariamente?"
É assim que empresas vencedoras constroem sua identidade, sua reputação e seus resultados.