O estudo DNA Cultural Brasileiro, produzido pela Santo Caos a partir da análise dos valores declarados por algumas das maiores empresas do país, oferece um retrato revelador da cultura corporativa contemporânea. Com rigor metodológico e leitura crítica e espirituosa dos discursos organizacionais, a pesquisa mostra que, apesar das diferenças de setor, porte e trajetória, muitas organizações compartilham um repertório surpreendentemente semelhante de valores.
Entre as palavras mais recorrentes aparecem ética, pessoas, inovação, sustentabilidade e transparência. O dado é relevante não apenas pela frequência desses termos, mas porque revela uma crescente convergência na forma como as empresas procuram apresentar sua identidade ao público.
Nesse conjunto, a transparência ocupa posição de destaque. A pesquisa identifica 136 menções ao termo em seu dicionário corporativo ampliado, tornando-o uma das expressões mais presentes no universo dos valores organizacionais brasileiros. Mais do que um conceito operacional, a transparência consolidou-se como elemento central da linguagem moral das empresas.
Esse resultado merece atenção. Durante muito tempo, a transparência foi compreendida como mecanismo institucional associado à prestação de contas, ao acesso à informação e à redução de assimetrias entre organizações e seus públicos. Sua função estava ligada à criação de condições para controle, fiscalização e responsabilização.
Nas últimas décadas, porém, a transparência deixou de ser apenas uma prática de governança para se transformar em valor universalmente desejável. Mais do que uma característica organizacional, passou a representar uma virtude, um signo de pertencimento ao grupo das organizações consideradas modernas, responsáveis e confiáveis.
Talvez seja justamente por isso que ela apareça de forma tão recorrente nos discursos corporativos. A pesquisa mostra que a transparência raramente surge isolada. Nos campos semânticos que organizam os mais de 2.500 valores mapeados, ela aparece integrada à categoria de Ética e Integridade, ao lado de conceitos como honestidade, governança, credibilidade e integridade.
A associação não parece casual. No imaginário organizacional contemporâneo, a transparência passou a funcionar como evidência moral antecipada. Declarar-se transparente tornou-se uma forma de comunicar honestidade, responsabilidade e confiabilidade. A palavra não apenas descreve uma prática; ela produz uma impressão de virtude. É nesse ponto que a pesquisa dialoga com alguns tópicos que tento desenvolver em meu livro Contra a Transparência (Iluminuras, 2026).
Minha hipótese é que a transparência passou por um processo de expansão simbólica. O conceito foi deslocado de sua função institucional original para assumir um papel mais amplo de legitimação. Em vez de indicar apenas abertura informacional, passou a sinalizar integridade moral.
Quando isso acontece, surge aquilo que poderíamos chamar de transparência performática. Não se trata necessariamente de falsidade ou manipulação deliberada. Toda sociedade produz vocabulários morais dominantes e, em determinados momentos, algumas palavras concentram expectativas coletivas de legitimidade. Organizações que desejam ser reconhecidas como responsáveis tendem naturalmente a incorporá-las aos seus discursos.
Um dado da pesquisa reforça essa percepção. As empresas que declaram transparência apresentam, em média, 6,4 valores institucionais, contra 4,7 entre aquelas que não utilizam o termo. O resultado sugere que a transparência costuma integrar repertórios morais mais amplos, participando de uma expansão contínua do vocabulário ético corporativo.
A própria pesquisa oferece uma chave importante para compreender esse processo ao recorrer ao conceito de “indexicalidade seletiva”. Certas palavras não servem apenas para descrever uma realidade; elas sinalizam adesão a horizontes de valores socialmente reconhecidos. Nesse contexto, a transparência pode funcionar menos como descrição de uma prática efetiva e mais como marcador simbólico de pertencimento. Em muitos casos, os valores declarados revelam menos aquilo que uma organização é do que aquilo que entende precisar dizer para ser percebida como legítima.
Mas existe um aspecto adicional. A transparência nunca elimina a opacidade. Toda transparência seleciona aquilo que será tornado visível e, ao fazê-lo, desloca para segundo plano outros aspectos da realidade. A transparência não é o contrário da opacidade; é uma forma particular de administrá-la.
Esse movimento ajuda a explicar um paradoxo contemporâneo. Nunca se falou tanto em ética, propósito, integridade e transparência. Ao mesmo tempo, continuamos assistindo ao surgimento recorrente de escândalos corporativos, crises reputacionais, conflitos de interesse e situações em que a distância entre discurso e prática se torna evidente.
O problema não está na existência dos valores, nem na transparência em si. Surge quando a transparência se converte predominantemente em linguagem.
Outro resultado da pesquisa aprofunda essa reflexão. Entre os principais achados apresentados pelos pesquisadores, destaca-se a influência da composição acionária sobre os valores declarados. Empresas familiares enfatizam mais frequentemente ideias associadas ao senso de dono; cooperativas valorizam temas ligados às pessoas; empresas estatais apresentam maior incidência de referências à ética e à transparência.
O resultado é compreensível. Organizações controladas pelo Estado operam sob níveis particularmente elevados de escrutínio público. Seus processos, gastos e resultados são permanentemente observados por órgãos de controle, imprensa, sociedade civil e agentes políticos. Nesses ambientes, a transparência não constitui apenas uma escolha reputacional; ela integra as próprias exigências de legitimidade da administração pública.
Isso não significa, porém, que possa ser absoluta. Como qualquer instituição complexa, organizações públicas dependem também de graus específicos de reserva, discrição e mediação para funcionar. O desafio não está em abolir toda opacidade, mas em definir legitimamente quais opacidades são aceitáveis e quais devem ser submetidas ao escrutínio público.
Talvez a principal contribuição do estudo DNA Cultural Brasileiro esteja justamente em evidenciar a força que determinados valores adquiriram no imaginário corporativo nacional. O levantamento mostra a existência de um vocabulário relativamente estável de virtudes organizacionais, compartilhado por empresas de diferentes setores e perfis.
Mas o próprio sucesso dessas palavras cria um desafio. Quando todos afirmam as mesmas virtudes, elas deixam de diferenciar. Quando todos se dizem transparentes, a transparência perde parte de sua capacidade de sinalizar distinção. Nesse cenário, confiança e transparência deixam de ser sinônimos.
Paradoxalmente, confiar pressupõe sempre algum grau de incerteza. Se soubéssemos tudo, a confiança seria desnecessária. A transparência continua sendo uma virtude importante. Mas, como toda virtude, perde sua força quando convertida em absoluto ou transformada em performance simbólica.
Talvez a pergunta mais relevante não seja quantas vezes a transparência aparece nos valores corporativos brasileiros, mas de que forma ela se materializa nas práticas concretas das organizações. Entre a opacidade completa e a exposição permanente existe um espaço mais difícil — porém mais valioso: o espaço da confiança.